Você sai de casa e, quando volta, encontra almofadas rasgadas, móveis mordidos, objetos espalhados ou até marcas nas portas. Quando isso acontece repetidamente, é comum pensar que o cachorro fez aquilo por raiva ou para “se vingar” por ter ficado sozinho.
Na prática, a destruição pode ter diferentes causas. Alguns cães estão entediados, outros ainda não aprenderam quais objetos podem morder e existem aqueles que apresentam sinais de ansiedade relacionados à ausência do tutor.
Por isso, simplesmente repreender o cachorro depois de encontrar a casa destruída dificilmente resolve o problema. O primeiro passo é descobrir por que ele está destruindo os objetos quando fica sozinho.
Por que o cachorro destrói tudo quando fica sozinho?
Morder e explorar objetos são comportamentos naturais dos cães.
O problema começa quando essa necessidade é direcionada para móveis, sapatos, portas, almofadas e outros objetos da casa.
Entre as possíveis causas estão:
- tédio;
- excesso de energia;
- falta de estímulos;
- comportamento exploratório, especialmente em cães jovens;
- ausência de alternativas adequadas para mastigar;
- dificuldade para permanecer sozinho;
- medo de algum acontecimento enquanto o tutor está fora;
- ansiedade relacionada à separação.
Identificar a causa é importante porque a solução para um cachorro entediado pode ser diferente daquela necessária para um animal que entra em sofrimento quando percebe que ficará sozinho.
Nem todo cachorro que destrói a casa tem ansiedade de separação
Esse é um ponto importante.
Encontrar objetos destruídos quando você chega em casa não é suficiente para concluir que o cachorro sofre de ansiedade de separação.
Cães jovens podem mastigar objetos por exploração. Outros podem procurar atividades porque estão entediados ou porque tiveram poucas oportunidades de gastar energia física e mental.
Na ansiedade de separação, normalmente existem outros sinais de sofrimento associados à ausência do tutor.
Por isso, é importante observar o conjunto do comportamento.
Quais são os sinais de ansiedade de separação?
Cães com problemas relacionados à separação podem apresentar comportamentos como:
- latidos ou uivos persistentes;
- andar repetidamente de um lado para outro;
- salivação excessiva;
- tentativas de escapar;
- destruição próxima a portas ou janelas;
- urinar ou defecar dentro de casa;
- agitação quando percebe que o tutor está se preparando para sair;
- dificuldade para comer quando fica sozinho.
Esses comportamentos costumam aparecer quando o tutor está ausente ou pouco depois de sua saída.
Alguns cães podem tentar destruir portas, janelas ou outros pontos de saída com tanta intensidade que acabam machucando patas, unhas ou dentes.
Nessas situações, o problema vai muito além de móveis danificados.
Grave seu cachorro quando ele estiver sozinho
Uma câmera pode ajudar bastante a entender o que acontece depois que você sai.
Não é necessário começar com um equipamento sofisticado. Dependendo da situação, até um celular ou câmera doméstica posicionada adequadamente pode fornecer informações úteis.
Observe principalmente os primeiros momentos depois da saída.
O cachorro:
fica tranquilo e começa a brincar?
Vai dormir?
Late continuamente?
Anda de um lado para outro?
Arranha a porta?
Tenta escapar?
Ignora completamente comida e brinquedos?
Essas informações podem ajudar a diferenciar um cachorro que procura algo para fazer daquele que demonstra sinais de sofrimento.
Os vídeos também podem ser mostrados ao veterinário ou profissional de comportamento.
O que fazer quando o cachorro destrói tudo sozinho?
A solução depende da causa, mas algumas mudanças na rotina podem ajudar muitos cães.
1. Ofereça atividade física adequada
Um cachorro precisa de oportunidades regulares para se movimentar.
Passeios, brincadeiras e outras atividades apropriadas à idade e às condições físicas ajudam a atender parte dessa necessidade.
Isso não significa simplesmente cansar o cachorro até a exaustão.
A quantidade e intensidade de exercício devem considerar porte, idade, saúde e condicionamento físico.
Além disso, exercício físico sozinho não resolve todos os problemas comportamentais.
2. Inclua estímulos mentais
O cachorro também precisa utilizar o cérebro.
Farejar durante os passeios, procurar alimentos escondidos, aprender comandos e interagir com brinquedos apropriados são algumas possibilidades.
Em vez de oferecer toda a alimentação diretamente no pote, uma parte da própria ração pode ser utilizada em atividades de enriquecimento, quando isso for adequado ao animal.
Essas atividades tornam a rotina mais interessante e oferecem alternativas ao comportamento destrutivo.
3. Ofereça objetos apropriados para mastigar
Se o cachorro gosta de mastigar, ele precisa ter alternativas seguras.
Existem brinquedos desenvolvidos especificamente para essa finalidade.
O produto deve ser adequado ao porte e ao comportamento do animal. Um brinquedo que funciona bem para um cachorro pequeno e tranquilo pode não resistir a um cão grande com mastigação intensa.
Observe também se o cachorro consegue arrancar e engolir partes do material.
Nenhum brinquedo deve ser considerado completamente indestrutível.
4. Experimente brinquedos recheáveis
Brinquedos que podem receber ração ou alimentos apropriados podem manter alguns cães ocupados durante determinado período.
Uma estratégia é reservar um brinquedo especialmente interessante para os momentos em que o tutor sai.
Assim, a saída pode começar a ser associada a uma atividade agradável.
Entretanto, cães com ansiedade intensa podem ignorar completamente a comida quando ficam sozinhos.
Se o cachorro normalmente adora determinado alimento, mas não toca nele durante sua ausência, essa informação merece atenção.
5. Ensine o cachorro a ficar sozinho gradualmente
Alguns cães precisam aprender que ficar sem o tutor por algum tempo é algo normal e seguro.
O treinamento deve começar com períodos que o cachorro consiga tolerar tranquilamente.
Conforme ele permanece relaxado, o tempo pode ser aumentado gradualmente.
O erro é avançar rápido demais.
Se o cachorro começa a latir, arranhar portas, andar compulsivamente ou apresentar outros sinais de estresse, provavelmente o nível de dificuldade foi aumentado além do que ele consegue suportar naquele momento.
Nos casos mais intensos, esse processo pode exigir orientação profissional.
6. Crie uma rotina mais previsível
Uma rotina razoavelmente consistente pode ajudar o cachorro a entender quando acontecem momentos de alimentação, passeio, brincadeira, descanso e interação.
Isso também permite distribuir melhor as atividades ao longo do dia.
O objetivo não é transformar a vida do cachorro em uma programação rígida, mas garantir que suas necessidades sejam atendidas regularmente.
Um animal que passa muitas horas sem atividade e recebe toda a atenção apenas quando o tutor chega pode ter mais dificuldade para encontrar maneiras adequadas de ocupar o tempo.
7. Proteja a casa enquanto o comportamento está sendo trabalhado
Além de ensinar comportamentos adequados, é necessário evitar acidentes.
Objetos perigosos devem ficar fora do alcance.
Isso inclui:
- fios elétricos;
- medicamentos;
- produtos de limpeza;
- alimentos tóxicos;
- objetos pequenos que possam ser engolidos;
- materiais cortantes;
- lixo.
Sapatos, controles remotos e outros objetos frequentemente destruídos também podem ser guardados temporariamente.
Essa medida não resolve a causa, mas reduz o risco enquanto o comportamento está sendo trabalhado.
Vale a pena comprar brinquedos para cachorro que fica sozinho?
Podem ser úteis, desde que sejam escolhidos corretamente.
Brinquedos resistentes para mastigação, brinquedos recheáveis e alguns modelos interativos podem oferecer atividades durante parte do período em que o cachorro está sozinho.
Antes de comprar, observe:
- tamanho indicado;
- resistência;
- material;
- facilidade de limpeza;
- possibilidade de desprendimento de peças;
- intensidade da mastigação do seu cachorro.
Teste inicialmente o brinquedo enquanto você estiver presente.
Se o cachorro consegue arrancar pedaços ou tenta engolir o produto, ele não deve ficar disponível sem supervisão.
Uma câmera para cachorro pode ajudar?
Sim, principalmente para entender o comportamento.
Algumas câmeras permitem acompanhar o cachorro pelo celular e verificar o que acontece durante sua ausência.
Ao escolher uma câmera, recursos como visão noturna, detecção de movimento, gravação e campo de visão podem ser úteis.
Entretanto, a principal vantagem não é conversar com o cachorro remotamente.
É conseguir observar quando o comportamento começa e como ele acontece.
Para um veterinário ou profissional de comportamento, uma gravação pode fornecer informações importantes sobre o problema.
Deixar televisão ou música ligada resolve?
Alguns cães podem se acostumar com sons ambientes, mas televisão ou música não devem ser tratadas como solução para ansiedade de separação.
Se o problema for falta de estímulos, outros tipos de enriquecimento provavelmente terão papel mais importante.
Se houver ansiedade verdadeira, será necessário trabalhar a causa do comportamento.
O som ambiente pode fazer parte da rotina, mas não substitui treinamento ou tratamento quando estes são necessários.
Posso deixar o cachorro preso em uma caixa de transporte?
Uma caixa de transporte ou crate pode ser útil para cães que foram adequadamente acostumados a permanecer nela de maneira tranquila.
Porém, não é uma solução automática para destruição ou ansiedade.
Um cachorro que entra em pânico quando confinado pode tentar escapar e se machucar.
Se ele late desesperadamente, tenta destruir a caixa, saliva intensamente ou demonstra grande agitação quando confinado, não simplesmente aumente o período esperando que ele “se acostume”.
Nesses casos, procure orientação profissional.
Devo brigar quando chegar em casa e encontrar tudo destruído?
Não.
Punir o cachorro depois que o comportamento aconteceu não ensina o que ele deveria ter feito durante sua ausência.
Quando existe ansiedade, a punição ainda pode aumentar o estresse relacionado à situação.
Ao encontrar algo destruído, retire o cachorro do local se necessário, organize o ambiente e concentre o treinamento em prevenção, enriquecimento e ensino de comportamentos adequados.
O objetivo é mudar aquilo que acontece antes e durante sua ausência, não castigar o animal depois.
E se o cachorro destrói objetos mesmo quando estou em casa?
Nesse caso, a ausência do tutor talvez não seja o principal gatilho.
Filhotes e cães jovens podem explorar objetos com a boca. Falta de estímulos, acesso fácil a objetos interessantes e ausência de alternativas adequadas também podem contribuir.
Observe quando o comportamento acontece e quais objetos são escolhidos.
Se a destruição ocorre tanto com pessoas presentes quanto durante as ausências, isso é uma informação importante para descobrir a causa.
Quando procurar ajuda profissional?
Procure um veterinário ou profissional qualificado em comportamento quando o problema for intenso, persistente ou apresentar sinais de sofrimento.
Atenção especial é necessária quando o cachorro:
- tenta desesperadamente escapar;
- machuca patas, unhas ou dentes;
- saliva ou ofega intensamente;
- não consegue permanecer sozinho nem por períodos curtos;
- vocaliza continuamente;
- deixa de comer durante as ausências;
- apresenta mudanças repentinas de comportamento;
- destrói principalmente portas e janelas tentando sair.
Também vale procurar ajuda quando as mudanças na rotina e no ambiente não apresentam resultado.
Problemas graves relacionados à separação podem exigir um programa gradual de modificação comportamental e, em alguns casos, avaliação veterinária sobre outras formas de tratamento.
O problema pode ser resolvido?
Muitos comportamentos destrutivos podem melhorar quando a causa é corretamente identificada.
Para alguns cães, mudanças na rotina, mais enriquecimento e acesso a objetos adequados para mastigar já fazem grande diferença.
Outros precisam aprender gradualmente a permanecer sozinhos.
E cães que apresentam sofrimento intenso podem necessitar de acompanhamento profissional.
O mais importante é não interpretar a casa destruída como vingança ou desobediência deliberada.
O cachorro está demonstrando um comportamento que possui alguma causa.
Descobrir essa causa é o primeiro passo para proteger sua casa e, principalmente, melhorar a experiência do cachorro quando ele precisa ficar sozinho.
Fontes consultadas
- ASPCA — Separation Anxiety — Explica os principais sinais de ansiedade de separação, possíveis comportamentos destrutivos e estratégias utilizadas no manejo do problema.
- ASPCA — Destructive Chewing — Aborda mastigação destrutiva, tédio, comportamento exploratório e a necessidade de diferenciar suas possíveis causas.
- VCA Animal Hospitals — Separation Anxiety in Dogs — Apresenta sinais relacionados à separação e destaca a utilidade de gravar o cachorro durante a ausência para avaliar o comportamento.
- VCA Animal Hospitals — Dogs and Destructive Chewing — Orientações sobre causas da mastigação destrutiva, enriquecimento ambiental e direcionamento para comportamentos adequados.


